Primeiras lições de tolerância

publicado na Tribuna da Imprensa

Catarina estava brigando com o sono, lagartando no sofá da sala enquanto fingia ver todas a programação proibida para menores de 14 anos na tevê – leia-se a novela das nove e o filme que passa às segundas-feiras logo depois – e ficou entretida com um filme que me causou um tanto de desconforto.

O filme tratava de uma dupla de amigos que entraram num cruzeiro só para gays e havia de tudo: de travestis a barbies, passando por ursos e empresários ibemezados que embarcavam para soltar a franga. Os dois protagonistas estavam num mato sem cachorro, já que eram hetero e homofóbicos.

Se não fosse o fato de uma criança de oito anos, teimosa como o pai, a insistir em assistir a algo que eu não estava disposto a explicar, não haveria problemas. Mas Catarina tem essa tenaz que dobra qualquer um, né? Então estava lá eu, do lado dela, tentando explicar que era uma comédia ruim, que os atores são ruins, que a história é boba, etc.

“Pai. Como assim eles são gays?” “Catarina, gay é quem – grosso modo – gosta de namorar alguém do mesmo sexo. Tipo menino com menino e menina com menina. E alguns deles têm esse jeito aí que você está vendo. Outros não. Mas isso é um filme, sabe? Não é bem assim assado.”

Ela me olhou intrigada quando, súbito, um travesti de cinqüenta metros dava um beijo no protagonista. Ela me olhou mais intrigada não entendendo mais nada.

“Aquela moça é um homem vestido de mulher, Cacá.” “Por que ele faz isso? Que bobo?”

Encasquetei um pouco. Como dizer para ela que isso tudo não faz diferença, que o fato deles se divertirem assim é o que importa? Ah! Já sei!

“Catarina, você gosta de Sandy e Júnior, né?” “Gosto, pai.” “E eu gosto disso?” “Não.” “Mas você fica feliz ouvindo os dois até o CD furar, né?” “CD não fura, pai.” “Eu sei, meu amor, é só uma metáfora.” “O que é metáfora? Tem no filme também?” “Não. É uma alegoria.” “…” “Ok. Você gosta e eu não. Mas o que importa aí é que somos os dois felizes, né?” “Sei. Então eu posso comer doces agora?” “Não. Você já escovou os dentes.” “Mas eu iria ficar feliz se comesse um doce.” “Ai Catarina…”

Olhei meio impaciente, como de costume, mas resolvi tentar de novo.

“Sabe o seu tio, o Marcelo?” “Sei.” “Você gosta dele, né?” “Gosto.” “Mas ele é chato, né?” “É.” “E faz piadas bobas, né?” “É.” “E você gosta disso?” “Não.” “Então.”

Ela encasquetou mais um bocado, comeu um doce – sim, não consegui negar o doce ante a argumentação veemente anterior da menina – e me sacou a seguinte: “O que importa é que gostamos dele, né?”

E eu sou tão orgulhoso dessa baixinha.

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3 Responses to “Primeiras lições de tolerância”

  1. Flavio Watson Says:

    Ai, a geração.

    Espero o meu dia.
    ; )

  2. Vivien Says:

    São as conversas mais interessantes que podem existir. Eu tenho certeza.

  3. Leandro Says:

    Cara, eu tentei de diversas formas me imaginar saindo de uma situação como essas com o Theo. E sinceramente, não sei…

    Por um lado é assustador, por outro é motivador…

    Esse lance de ser pai é ótimo, né? Mas as vezes assusta…

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