Os exaustivos calendários

December 12th, 2014 by zander

E eis que chega a época de se desejar que 2015 seja repleto de felicidades, que 2016 seja repleto de dinheiro, que 2017 seja repleto de saúde, realizações, amores, paz, aventuras, velocidade de banda, beijos, sexo e tudo o mais que nos transforma em pessoas melhores e mais felizes. Mais e mais e mais. Sempre muito mais pra caramba à beça.

Só que às vezes precisamos de um menos.

Esse excesso de tudo, ou melhor: este desejo de excesso, é um gerador de angústias que desmontam nossas resistências, nossa capacidade de gerar permanência, de fazer o que é importante ante o que é urgente ou que dá prazer imediato. É um desejo que impulsiona as gentes para frente sem pensar muito no caminho, nas coisas que ficam para trás. Como numa estrada em que se viaja a 200km/h e não se vê as pastagens, as paisagens humanas do caminho. Como se fosse uma corrida de crianças onde todos tentassem a todo custo chegar em primeiro lugar numa marca que sempre se move para mais longe, além da capacidade de qualquer um. Como se fossem metas de empresas que são feitas para “desafiar” a capacidade de fazermos o impossível, o incorreto, o inexato em prol de algo que se sumirá na virada do calendário. O famoso “um leão por dia”. Haja leão.

Criamos marcas no caminho para medir periódica e regularmente o que fizemos. Chamamos essas marcas de calendário. A cada fase, uma recompensa, um desafio, uma descarga de esforços, uma comemoração por termos sobrevivido a trinta dúzias de dias. Só que o mundo não tem calendário. O tempo é a forma que nós, seres humanos, criamos para poder medir o movimento, uma abstração de corte para medir o que já se media “erradamente”. O universo entende só o movimento; tempo e espaço são indivisíveis para ele.

Eu gosto de parar “de tempos em tempos”. E, na redução deste meu movimento, vejo a minha direção, meus objetivos, meus sonhos. Já teve épocas que eu não os tinha. Eu era um “driftwood”, uma madeira que flutuava no rio sem vela, leme ou remo. Ficar na superfície já era o suficiente para mim. Hoje, não me basta mais. Ter metas não é ruim, quando o caminho é justo, prazeroso e alinhado com o que somos. Cobrar por metas também não é ruim, desde que idem. Gosto de me perguntar sempre: “a que custo”. O que perdemos para chegar em tal ou tal lugar? vale a pena essa estrada, esta meta?

Quando eu trabalhei para corporações multinacionais decidi para mim que a urgência era sempre relativa. Nestas empresas eu era um pouco menos que uma engrenagem, mal meu nome – o que assumi para mim – eu pude ter e como efeito final, eu quis ser uma engrenagem Dêem-me a pílula errada, por favor! Não consegui, não consigo. Melhor aceitar o que sou, reduzir o que me expande, o que me dilui no mundo e ficar concentrado naquilo que ẽ importante de fato.

Meus filhos, meus amores, minha família, meus saberes, meus amigos, meu prazer em estar sob a sombra de uma pimenteira no verão. E não muito mais que isso.

Este ano eu desejo para as pessoas que recebam menos, que gastem menos, que comam menos – mas não passem fome! -, que bebam menos, transem menos (e melhor!), falem menos, escutem mais.

Ouvindo, abrimos mão de nós mesmos e deixamos o universo movimentar-se em nós

infância

October 8th, 2014 by zander

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Opiniões

June 16th, 2014 by zander

Eu sou uma pessoa de regras. Não que as siga o tempo todo ou em qualquer momento, mas gosto de vê-las e conhecê-las meio com para como saber quem são os parentes distantes ou quem são os ministros do governo atual. Não que eu os saiba também, mas gosto do processo.

O legal das regras é que elas tendem a ser universais, ou seja: se aplicam normalmente a todos, especialmente à mim. E, como não poderia deixar de ser, eu normalmente só consigo contar com minha limitada experiência do mundo para formular essas regras tais. Podemos então dizer que sou um tecelão de regras que aplicam-se primariamente a mim mesmo e, por inferência, para a humanidade.

Pouco pretensioso, não é? Mas, de certa forma, é o que fazemos diariamente: olhamos para o mundo ao redor e tiramos conclusões a partir do nosso ferramental cognitivo, seja ele arcabouçado por anos de estudo ou apenas por senso comum. Descartes faz isso, o taxista que me trouxe do aeroporto também. E eis aí a primeira regra: espelhamos a nós mesmos no mundo ao redor porque só entendemos dele aquilo que já carregamos conosco.

Ok, você pode dizer que tem a tal mente criativa e as pessoas sempre podem aprender mais e mais. Está certo, mas as pessoas precisam estar dispostas a largar as antigas maneiras de enxergar o mundo para entender uma nova, mesmo quando ela se manifesta de dentro para fora. Um alienígena pode caminhar na principal avenida das maiores cidades do mundo e passar (quase) desapercebido se não aprendermos a enxergá-lo como ele é. Entender o que nos é estranho não vem naturalmente.

Como disse, temos várias noções sobre as coisas ao nosso redor e sabemos por experiência (ou por estudo, o que é pior) o que esperar dessas coisas às quais temos noção. Isto é a essência do preconceito. É o uso do estereotipo para definir, planejar e reagir aos fatos da vida.  

Até aí nenhum problema. Isto nos trouxe das savanas até à selva de concreto que habitamos. Mas e quando o que supomos não é o que achamos?

Tergiverso para definir um conceito. Tudo que achamos sobre algo é, para mim, uma opinião sobre esse algo. Toda opinião sobre algo que se confirma como verdadeiro é, para mim, um saber sobre esse algo. Todo saber que se confirma universal (ou seja: não só para mim) é uma ciência.

Somos todos escravos da opinião, esta filha bastarda do preconceito e prima distante da idéia, do saber e da sabedoria. As opiniões governam nossos atos desde o amanhecer até a hora de dormir. Por conta das nossas opiniões escolhemos o “melhor” lugar na cama, a forma de escovar os dentes, o que comemos no café da manhã, os caminhos que faremos para os nossos trabalhos e assim por diante. Raramente nós perguntamos se nossas opiniões são fundamentadas, se elas se baseiam  fatos e saberes. Mais raramente ainda se são ciências. Nós não somos seres científicos.

Recentemente nossa opinião passou a ter valor. Faz-se riqueza com o que achou sobre as coisas, dá-se voz e poder de acordo com os consensos (essa opinião que se multiplica na mente dos outros como virii) e paga-se (mal) para que todos tenhamos opinião sobre tudo e todos.

Dai temos dois graves problemas: dificilmente as opiniões são ciências (ou mesmo saberes) e nem todos conseguem (ou deveriam) ter opinião sobre tudo. Sobre o primeiro ponto, não me estendo, acho que é auto-explicativo. Sobre o segundo, tiro duas regras: a do ignorante e a do burro.

Ignorante é quem ignora e todos nós o somos em algum nível. No último grau, não sabemos quando morreremos ou qual a cor da cueca que estou usando hoje (eu não me lembro mais) e não há mal nenhum em dizer “eu não sei”. Só que, como disse antes, ter opiniões tem valor. Se eu não as tenho, não tenho sequer esse mínimo valor social, não tenho poder de troca.

Nas redes sociais fazemos propaganda de nós, nossos gostos e opiniões o tempo todo. É este o negócio delas. É esse o nosso negócio quando delas participamos. É nesta toada,exprimimos achismos por puro e simples pré-conceitos. Não nós damos o trabalho de descer um nível e ler algo na contrapartida, não chegamos fatos, dados e nomes. Não nós preocupamos com a ciência das coisas. O fluir das integrações propicia isso. E, convenhamos, é um saco ficar checando dados mas isto não justifica a opinião (mal-)dada. Além disso é humanamente impossível saber tudo sobre tudo. Que tal não ter opinião sobre aquilo que não se conhece, não se entende e não se interessa?

Quando somos apresentados a dados, fatos e nomes que contradizem nossas opiniões, nos abalamos. Eu posso até crer em fadas mas não tenho dados que comprovem minha crença, minha opinião. Isto pode mudar bem pouco minha conduta, mas o que falo pede valor automaticamente. Isto implica que sou pouco criterioso com o que penso é menos ainda com o que falo.

No momento em que fatos e dados apontam para o oposto do que eu penso o “correto” a se fazer é conferir esses fatos e dados (vai que a fonte se engana) e refazer minha opinião. Estar errando ante a ignorância não é mau nem é um mal. Se, no entanto, persisto no meu caminho, insisto no meu argumento e me fecho aos fato e dados, se nego a realidade ao meu redor por puro medo de perder o valor daquilo que falei, da opinião desembasada que emiti, torno-me um burro que teima no erro. Este, acima de tudo e todos, deveria manter a sua opinião no bolso ou apenas para seu séquito de ignaros. 

A burrice contagia e se espalha como fogo em palha seca. Pior: ela não tem classe social, ideologia política ou nível educacional.

Funerais

May 23rd, 2014 by zander

A vida, na minha humilde opinião, é feita de duas coisas: ligaçõss e despedidas.

Nos ligamos ao mundo ao nascer. Ligamo-nos à mãe, ao pai, aos brinquedos, ao sol, ao chão, ao outro. Ligamo-nos aos que nos são próximos, a quem nos dá prazer (e dor), a quem nos traz alimento. Alimentamo-nos de bebidas, comidas, cheiros, toques, afagos, ideias, conversas, gozos e atritos. Ligamo-nos aos atritos, ao conciliar, ao abraço, ao beijo, ao beijar e abraçar, ao dar e receber, ao ler e ser lido, ao falar e ser ouvido, a escutar. Ligamos sobretudo quando entendemos e somos entendidos. Entendendo, amamos.

A despedida, essa maldita, nos lembra que cada link, cada ligação tem um tempo incerto, uma intensidade inexata, um impacto impreciso. Ela, essa ceifadora, nos diz que não somos mais que sombras no palco da vida, que somos um interlúdio no grande cenário do mundo, somos apenas figurantes de uma enorme história que nos antecede. Somos piscadelas rápidas, vagalumes minúsculos que dão lampejos de compreensão e de entendimento na vida. Que cada um de nós é muito pouco perante o incomensuável e terrível infinito cosmos.

Ainda assim, nos ligamos, nos conectamos, nos amamos. Teimamos em resistir aos cortes, aos fins. Teimamos, talvez, porque temos uma bênção e uma maldição: temos memória. E memória é, acima de tudo, honrar, respeitar, ligar-nos a quem se foi, a quem não pode ser mais nada além do que falamos sobre. Ter memória é amar desafiando a eternidade.

Não acredito em deuses ou astronautas, mas sei que é nesse intervalo de cada piscada no breu acachapante que nos cerca, nessa teimosia nossa e apenas nossa é que nos definimos como humanos, que almejamos o infinito.

Despeço-me e recordo. Mantenho a memória de quem me marca comigo, carrego e reproduzo as histórias que me contam. Assim como antes e para todo os sempre.

Amem.

Rotina

April 24th, 2014 by zander

Daqui a uns cinco anos eu vou acordar cedo, antes do Sol nascer, na hora em que o galo — aquele verme maldito! — canta para acordar a vizinhança. Eu vou acordar cedo e esperar o moço do jornal que traz as tranqueiras de papel pro vizinho já com um café na mão e conversar sobre as notícias que realmente valem a pena. Aproveitarei a porta aberta e passarei na padaria e comprarei uns pães e um saco de leite tipo A em saquinho — que eventualmente deixarei cair no chão na volta para casa, me forçando a retornar à padaria e comprar um longa vida genérico —, queijo e presunto e um sonho.

Daqui a uns cinco anos eu irei preparar o desjejum e lhe esperarei acordar com o café pronto (não o requentado que eu dei pro moço do jornal, mas um recém passado) e já servido à mesa. Acordarei as crianças e colocarei todas para escovar os dentes, urinar, trocar de roupas e fazer a mochila da escola. Aí deixarei-as contigo com as recomendações para a aula e um dinheiro para a merenda delas. Quando vocês todos saírem, eu sentarei à máquina de escrever e prepararei crônicas, horóscopos, resenhas, traduções e adiarei por mais um mês aquele livro de ficção científica, dois meses aquele outro infantil que está pela metade e desistirei mais uma vez do meu Manual de Redenção Mental Social que irá salvar a civilização ocidental.

Daqui a cinco anos eu irei escrever até a hora do almoço, quando eu pararei tudo para fazer uma comida rápida, colocar as roupas para lavar, passar um pano na casa e arrumar as camas. Os brinquedos e as coisas das crianças não, que elas têm que manter tudo em ordem por si só, mas eu não me aguentarei e guardarei algo que esteja mais aviltante nem que seja pelo prazer de discutir com eles depois. Aí voltarei às minhas leituras e anotações e prometerei mais uma vez zerar a pilha de livros e revistas que estão acumuladas, esperando ser lidas. Então eu me xingarei um pouco e invejarei não ter o tempo vago dos meus dezessete anos mais uma vez.

Daqui a cinco anos eu esperarei as crianças voltarem da escola e farei um lanche rápido para elas e as mandarei para os cursos ou para brincarem um pouco na rua, que lugar de criança é na escola mas também é na rua a brincar. No que elas ficam distraídas, eu me distraio pensando em coisas a fazer, no que há para melhorar na casa, nas refeições, nas ginásticas que fico eternamente prometendo para você que irei fazer mas sempre procrastino e deixo para o mês seguinte. Finda a tarde, você chega, me conta como foi o seu dia na repartição e eu digo que não fiz nada para jantar e você se oferece para fazer alguma coisa. As crianças voltam para casa e comemos com ruído, bagunça, sujeira, alguma algazarra, bazófia e balbúrdia coordenada com sorrisos e rabugices.

Daqui a cinco anos eu lavarei as louças, as roupas, colocarei as crianças para dormir, ligarei a televisão e assistirei uma novela — da qual reclamarei de tudo: do roteiro, do elenco, do figurino, fotografia e principalmente da trilha sonora — e desistirei da tevê, colocarei um filme para vermos e você irá cochilar no sofá. Nisso eu voltarei para a máquina e escreverei algo que jamais será lido por ninguém além de nós dois. Depois lhe chamarei para irmos para a cama, verei que dia da semana é antes de tirar a roupa e direi “hoje é dia”, mesmo não sendo. E faremos amor tranquilo. Ou não.

Antes de dormir, contudo, lembrarei do caminho que me levou até ali e saberei que fiz tudo certo.

Eu te amo

April 3rd, 2014 by zander

Benjamim na rede

Quantas vezes ouvimos um “eu te amo” ou um “amo você” que nos desconcertou? e um “amo-lhe” que soa falso, como se fosse ensaiado para amansar uma coisa que não tem nome mas que está sempre pairando no meio dos relacionamentos? quantas vezes nós não nos apegamos ao insosso e nefasto “eu também” que segue o momento de declaração de amor do outro significado”? quantas e quantas vezes não repetimos mecanicamente a declaração mais simbólica entre duas pessoas?

Certa vez, tempos atrás, ouvi uma pessoa dizer que o “eu te amo” é forte demais para ser usado da forma que fazemos. Ouvi isto num encontro de jovens na paróquia de São Francisco Xavier, na Tijuca, centro do mundo, Brasil. O orientador respondia ao rapaz que dizia “é difícil amar todo mundo”. Ele disse isso ao sair da palestra onde, pela enésima vez, se repetia a litania máxima da Igreja Católica que repetia o amarmo-nos uns aos outros como a nós mesmos. É uma bela imagem que até hoje me comove.

Só que amar não é fácil. Amar todo mundo é impossível.

Mais recentemente fui a uma palestra de uma monja num templo budista em Cotia, São Paulo. Ela dizia que devemos não causar mal ao outro, que a dor ao próximo é inadmissível, que devemos ser conscientes de nossos atos e palavras para evitar causar dano ao outro. É uma outra imagem linda: a das pessoas conscientes o tempo todo, atentas ao seu redor, evitando o mal constantemente.

Só que não causar mal é impossível. Num nível mais básico, precisamos da morte de outros seres para vivermos, causamos dor e desconforto com nossas palavras e gestos, mesmo sem a intenção de fazer o mal, mesmo quando somos inimputáveis do ato em si. Como condenar aquele que desconhece a dor causada por seu luxo ou seu conforto. Além disso como ser consciente o tempo todo? somos rara e porcamente conscientes de nossos gestos, de nossas necessidades. Somos seres de instinto e impulso tanto quanto os nossos primos símios, só um pouquinho mais sofisticados no gesto e na fala. Não conseguimos pensar e racionalizar todos os nossos atos.

Para a dor, a resposta é simples (mas não é fácil): temos que causar o mínimo de dor possível, ficar o mais consciente possível e observar o mundo ao redor. Para o amor, a escada é outra.

Há várias formas de dizer o amor. Há o “eu te amo” apaixonado, sussurrado após o gozo. Há o “amo você” dito como um “oi” ou um “bom dia”. Há ainda o “eu amo” dito por dizer. Todos esses poderiam ser substituídos por um “eu gosto de você” sem dor ou perda de sentimento para quem fala ou para quem ouve. É mais sincero. O “gostar de” ao invés do “amo” era a resposta dada pelo orientador citado nos parágrafos anteriores.  Ele disse que amar realmente é muito difícil e que não há mal algum em não dizer “eu te amo”, principalmente quando não há amor de verdade ali. O gostar é suficiente.

Não sei definir o que é o amor. Costumava dizer que é “aquilo que sentimos quando queremos que algo faça parte das nossas vidas”, como os fãs de bandas de rock, de times de futebol, de filmes ou universos ficcionais, eles pegam o que é além de suas vidas e trazem para dentro de si mesmos. É amor incondicional. Mas pessoas me mostram que não precisa ser isso ou apenas isso. Concordo.

Mesmo não definindo, sinto e falo “eu amo”. Amo. Amo. Amo. Pode ser mecânico, automático, pode ser falso, pode ser desesperado ou desencantado. Pode até mesmo ser em silêncio distante e contemplativo mas é a forma que eu tenho de tentar brilhar além de um dia que acizenta a minha vista, é a forma que encontro para dar sentido às horas, dias, meses, aos quilômetros, ao passado e ao futuro.

Amo. Incondicionalmente.

conceito, forma, comunicação, persistência

March 12th, 2014 by zander

o coiote

Os fins são os limites derradeiros e talvez, por causa disso, lidemos tão mal com isso. Nas fitas de cinema, o “the end” indicava as luzes que acenderiam e a nossa ascensão de volta à realidade. Despertávamos da ilusão consentida da história contada e retomávamos à mundanidade com nossa fé no mundo ora realçada, ora destroçada (dependia da qualidade do filme, afinal).

Pode ser ignorância minha, mas, no passado, as histórias – mesmo as que levavam sequências, seriadas – eram definidas principalmente pelo fim e poucas se estendiam em franquias que esgarçavam as essências dos personagens. Os cavaleiros, os heróis míticos, os reis dos tempos imemoriais eram determinados pela inexistência, pelo seu maior limite, pela barreira que todos temem, ao mesmo tempo que superavam as mortes mais pela perpetuação de seus nomes e feitos que pela repetição ad nauseum de histórias que pouco acrescentavam à mitologia. Hoje, tudo busca uma continuação ou um alongamento desnecessário, raso e sem objetivo. A obsessão em prosseguir com personagens, com franquias, séries, livros, de estender uma história até ela virar um fiapo é um desejo de transcendência da morte que me incomoda muito. Especialmente quando esse esticar é feito em empresas, principalmente as de grande porte. Neste caso, os personagens viram projetos, ideias e estratégias que ora precisam de um “choque de realidade”, ora precisam ser aprofundadas no viés conceitual delas.

Nós, ao assumirmos a cadência dos tempos, nos despreparamos para o fracasso, para as derrotas diárias, para as desistências e fins, mesmo sublinhando que cada feito é construído com anos de tentativas e erros, com várias e várias pequenas mortes diárias, preferimos o discurso do vitorioso, do que alcança seu sonho de margarina na vida pessoal e o desejo do herói corporativo no campo profissional. Ou vice-versa. Preferimos louvar a exceção ao invés da regra para transformar aquela nesta e vice-versa (de novo).

Uma vez eu fui “conduzido” a assistir um vídeo corporativo onde uma pessoa — digamos, um sonhador — apresentava seu sonho (de vida!) para um grupo de analistas de investimentos que, em poucos minutos, dizia se o projeto valeria o investimento de centenas de milhares de dólares ou não. Não entro no mérito do processo, eu realmente acho que decisões são – e devem – ser tomadas com anos de preparo, mas instantaneamente, e que protelar uma decisão pode matar uma ideia. Mas o caso ali era outro. Era uma demonstração de irredutibilidade de alguém que acredita num sonho (de vida!) ante pessoas que claramente não entendiam o que estava ali na frente. Não se reconheciam. Obviamente o resultado era uma negativa. E obviamente quem lutava por seu sonho se negava a aceitar o fato.

Notemos que aí temos uma morte definitiva. Aquela chance em especial não se daria de novo. Aquele board de investidores já dera o seu não categórico, independente da capacidade do outro aceitar a decisão. Todos estavam certos, cada qual à sua maneira. Um ceifava, outro enlutava-se.

O erro foi apresentar esse fim claro, óbvio e ululante como “falta de flexibilidade”, como se ser flexível fosse evitar a morte do sonho (de vida!), o fim de um conceito. Como se o outro, aquele que submete aos sábios, devesse de fato abrir mão de sua luta, do bom combate. Quem me apresentava o vídeo não teve a sensibilidade de ver uma coisa tão rara nos palcos corporativos: um propósito saudável e concreto em si mesmo.

Quando temos um conceito, um propósito claro acima de tudo, não interessa se vamos receber bilhões de dólares ou de nãos enfileirados, mas se somos compreendidos na essência. Neste ponto cabe a flexibilidade. O seu patrono, mecenas, patrão, pode não entender o que você fala, o jeito como você demonstra seu conceito, e aí sim vale a pena entender com quem você conversa para adequar o discurso ao conceito. Nunca o contrário. Porque o mundo já está cheio de conceitos esvaziados por decisões coletivas sem fundamento. Projetos feitos toscos por conta da miopia corporativa e que são colocados no mercado de pensamentos. Defender uma boa ideia em um board é questão de convencimento, sedução e assertividade. Mas defender uma má ideia é idem, idem e idem. Nada separa o joio do trigo no espetáculo empresarial.

Até aqui parto do pressuposto que a ideia é boa, que é um propósito virtuoso. O outro lado da moeda é bem simples: se sua ideia não se sustenta ao escrutínio — principalmente de quem entende do assunto — melhor voltar à mesa e reformular tudo, ou mesmo aceitar o definitivo the end. Não há demérito algum em errar e zerar tudo o que foi feito. Seu projeto de foguete feito aos cinco anos não voaria nem com a melhor das intenções. Às vezes é melhor aprender a abandonar algumas causas, nem que seja para retornar a elas tempos depois, com mais musculatura.

Toda ideia, conceito, projeto precisa de um ciclo de amadurecimento, como se fosse o prenúncio de sua jornada. Elas precisam ser apresentadas ao seu público e ser desenvolvida com uma devida profundidade, de acordo com o grau de tensão que ela suporta ou descartadas solenemente se não sobreviverem ao processo, sem dor ou vontade de perpetuar o que já não funciona mais.

Eu falo de forma, de comunicação e conceitos, mas acima de tudo de persistência. Persistir ao convencer, ao seduzir, ao repensar, ao escrutínio e até mesmo à morte. Falo tudo isso para dizer que alguns filmes não merecem uma continuação e que outros deveriam ter uma hora e meia a menos para serem considerados ao menos como bons.

as ausências absolutas

March 11th, 2014 by zander

Benjamim, meu querido menino,

ainda hão de passar algumas primaveras e alguns outonos antes que consiga entender o que teu pai carrega no coração hoje. serão estações inteiras que eu não dividirei contigo, memórias que, por diversos motivos, serão negadas às nossas memórias. a distância que nos separa é maior que os quilômetros, é uma distância que será medida em anos.

nas fotos que tenho comigo, eu olho o teu rosto redondo, ou melhor: desde que olhei o teu rosto de bebê pela primeira vez notei que você carregava a mesma herança que deixei para sua irmã. deixei para ambos os olhos caídos, meio tristes, meio melancólicos. sei que crescerá numa família que tem bem pouco de melancolia no seu seio e torço para que não carregue contigo a totalidade da minha herança. dizem que as características saltam gerações e assim espero que seja.

hoje eu não tenho muito para falar para ti, apenas do vazio que a tua partida me deixou, da saudade, do silêncio, da rotina quebrada, das obrigações puladas e não estou sabendo lidar com isto. quero te procurar mas acho que atrapalho as coisas neste momento. há a chance de se intervir demais e errar a mão, de passar mensagens que serão lidas estranhamente, erradas, e este é um risco que hoje não posso correr.

sei que há muito chão pela frente, para ambos, mas não consigo deixar de chorar, de viver o luto deste futuro que será absolutamente ausente.

do teu pai, que mora no futuro.

Carta a uma menina de dezesseis anos

February 18th, 2014 by zander

Minha amada filha,

Não pense você que eu me esqueci da costumeira carta de parabéns que tradicionalmente atraso, mas não tardo em compensar. Não pense também que esse atraso diminui ou rarefaz o carinho e o amor que tenho por você. Não existe força no mundo que desfaça o amor que um pai tem por uma filha, que compense ou disperse esse bem querer.

A vida, minha filha, traz distrações que nos levam para portos distantes da morada da nossa felicidade e essas distrações podem ser frutos de mais amor, amor que não há de ser calado ante a loucura dos tempos corridos e angustiantes. E é sobre esse tal de Amor que eu queria lhe escrever desta vez.

Já falei para você sobre tristezas e decepções, sobre os inícios que flertam com os fins, sobre os pés de tomate (ou pimenta) que precisam ser cuidados a fim de manter-se algo que achamos importante, fundamentais sobre a vida, mas tudo isto foi escrito sob a égide da dor, do sofrer que este seu cascudo pai estava a passar. Hoje, talvez mais tranquilo, conto-lhe algo mais sereno e que percebo falhar em lhe falar ao vivo. Talvez por timidez, talvez por gagueira ou ainda porque saiba que minha filha tem mais a ensinar a mim que eu a ela, mas sobretudo porque entendo que a maior dor de um pai é ter a certeza que sua filha se torna -– pouco a pouco – uma mulher de verdade.

Não, não falarei de sexo contigo até porque não é isto que traz a maturidade para alguém (pelo contrário: é uma relação inversa de causa e efeito), mas do que deveria preceder o sexo em todos os sentidos: o Amor.

Quando me perguntam desse tal Amor, eu digo: é sentimento quando queremos que algo diferente de nós faça parte da nossa vida, que seja tão cotidiano quanto escovar os dentes ou tomar banho, que nos faz saber tudo desse “estranho” a ponto de conhecê-lo mais e melhor que nós mesmos. E este sentimento é raro, minha filha. Tão raro quanto um arco-íris duplo. Ou não.

Quando você encontrar o Amor como nome próprio, ele pode nem ter nome ou sobrenome, mas você irá reconhecê-lo na mesma hora. Não estou falando daquele à primeira vista (até porque este é paixão, é pathos; é outra coisa), mas de Amor daquele que você sabe que durará e mudará e irá crescer contigo e irá para onde você for. Mais que um Amor de Estimação, será um Amor que fará parte de você como o seu corte de cabelo, o sorriso que você treina no espelho ou um cacoete. Ele irá se tornar uma característica sua, daquelas pelas quais você é reconhecida na rua (“olha lá a menina que tem aquele Amor Canhoto!”) e pelo qual as pessoas irão se referenciar anos depois, quando você as reencontrar num acidente da vida (“e o Amor Pintado? você tem notícias dele? vocês eram tão bonitos juntos!”).

O Amor Capital pode ter várias caras, querida. Pode ser alto, quadrado, rápido ou lento, ser feito de vidro ou madeira. Ele até pode morar em várias casas ao mesmo tempo, ter vários nomes e rostos ou mesmo ser inventado. O Amor não tem fórmula ou forma, mas é sempre encontrado e reconhecido nos olhos de quem ama.

Este amor com A maiúsculo dificilmente cabe numa história de livro de adolescentes, minha filha. Normalmente vem sofrido ou mundano, é meio sem graça ou arrebatador. É tão sem regra que as pessoas precisam inventar fantasias para poder vender algo com ele. Fantasias que não fazem jus à importância que ele poderá ter na sua vida, na forma em que ele irá determinar o que você irá fazer da sua vida, das suas opiniões e gostos. Pois é, minha querida, não se iluda: somos ditados pelo Amor que sentimos, mais do que a Razão que queremos ter.

Quando o Amor vier bater à sua porta, não avise seus pais. Tememos o momento em que nossos filhos aprendem a reconhecer este indivíduo porque simplesmente somos egoístas. Queremos, sonhamos, que este Amor seja todo e apenas nosso.

Só que para aceitar você como adulta, como uma quase pessoa, preciso admitir que seu Amor não é só meu. Que serei o seu querido por bem pouco tempo e que você encontrará outros alvos para esse sentimento maravilhoso, que nos move, comove, encanta e desmonta.

Acho que estou pronto, minha filha e quero que você Ame.

 

 

do seu pai, que espera ser sempre Amado,

Atravessar o Corte do Cantagalo é retornar ao passado

February 17th, 2014 by zander

Caetano cantou uma esquina, o Grupo Rumo, uma ladeira; os dois no milênio passado. Ambas as canções se referem a ruas em São Paulo, uma delas foi a semente do meu desejo de mudança, de abandonar o passado, a memória e vir para cá, e as canções cantam uma emoção de pertencimento, de encantamento que eu não conseguia ver refletida em mim em lugar nenhum do mundo (talvez porque meu mundo seja pequeno, limitando-se a alguns bairros e avenidas em apenas duas cidades, talvez porque meu coração seja de um alcance galáctico; como saber?).

Porém, estas sensações de deslumbre pela paisagem começaram a nascer em mim quando me vi como visitante no Rio, ao descer no aeroporto Santos Dumont e ganhar o Aterro do Flamengo num taxi (ou ônibus), ao pegar um coletivo na Rodoviária Novo Rio ou mesmo ao ver fotos da minha terra publicadas por amigos em redes sociais. Mas não eram emoções de canção, eram apenas a manifestação da saudade.

Só que eu sou uma pessoa de saudades pontuais. Sinto faltas, sinto carências e desejos incompletos, necessidades de completar histórias ou de reviver assuntos. São coisinhas miudinhas de pessoinhas que ficam remexendo caixinhas de lembrancinhas. Coisa pouca, à toa. Não inspiram odes, trovas ou romances, não são matérias nem para crônicas de feicibuque ou textos de tuíter, é coisa para se ter, sorrir e se lembrar que estamos vivos. Apenas isso.

Mas algo diferente aconteceu comigo recentemente. Ao cruzar o Corte do Cantagalo em direção a Copacabana, vindo da Gávea, me vi como moleque pegando o 473 que vinha do Rio Cumprido. Cada quadra, cada fachada de prédio conservada ou renovada me despertava uma emoção de retorno, como se fizesse um sentido mais profundo para mim fazer aquele trajeto. Não era apenas o ir-e-vir de casa-trabalho-casa ou o retorno das noites insones nos bares para o descanso sob o teto familiar, mas mais um traçado de memórias e de reencontro com alguém que eu fui.

À semelhança com as histórias que eu conto para mim mesmo quando passeio pelo centro da cidade, eu me lembrei de momentos que vivi no bairro, das idas às bancas de jornais, das paixões efêmeras que tinha por vizinhas as quais sequer cheguei a perguntar o nome, dos sonhos e delírios de ser um cientista, escritor, rockstar, expressos nas livrarias ou projetados nas lojas de discos, de instrumentos musicais. Copacabana sempre foi a morada dos meus sonhos, antes de eu os abandonar.

Eu me lembro da Confeitaria Colombo que hoje é uma agência do Banco do Brasil e me lembrei das caminhadas noturnas até ao apartamento em que morava com minha família, na Nossa Senhora de Copacabana, na Avenida Atlântica e na Xavier da Silveira. Lembrei dos lanches, dos crepes, dos picolés, dos caixotes na praia, das cervejas, dos porres, dos amores e amores e amores e paixões, nunca jamais realizados. E de uma dúzia de amores vividos também.

Lembrei da camaradagem, dos amigos queridos, dos rostos e olhares, da vontade ululante de ser maior do que eu era de fato. Lembrei da avó querida, partida; dos moleques da rua, especialmente aqueles com quem não converso e nem sei mais o paradeiro, lembrei dos jornaleiros, cúmplices de diversos delitos e meus primeiros credores. Foi um feliz retorno ao passado nos poucos minutos de trajeto e uma sensação de felicidade coroada com uma frase, dita por uma amiga queridíssima: “acolha esse menino de 17 anos que ainda mora em você”.

Acolherei, querida. Acolherei.


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