O sapo

April 22nd, 2015 by zander

Dizia a história que determinado sapo vivia num brejo mal frequentado, mas para entendê-lo, precisamos primeiro nós delongar sobre como vivia.

Ele andava com outros sapos que, como ele, comiam sempre as mesmas larvas que geravam os mesmos insetos que voavam sempre por cima dos mesmos sapos; fugiam sempre dos mesmos jacarés, garças, cobras e corujas que os caçavam e se caçavam entre si que geravam os dejetos onde as larvas que comiam se desenvolviam; e se reproduziam na mesma água que as mesmas sapas colocavam suas ovas ao serem abraçadas num gesto que lembra aos humanos um arremedo de relação sexual.

O mundo desses sapos era limitado, restrito e míope, mas a eles bastava. O sol nunca batera forte ali, a chuva nunca fora de gerar enchentes, poucos animais andavam pela região e, pelo pouco tempo de vida dos sapos, nada muito significativo havia ocorrido em sua história há gerações. Ser um sapo não era de todo ruim, pelo visto. Era o equivalente dos Hobbits, mas no mundo real.

Um dia, este determinado sapo foi capturado por um garoto que o colocou num aquário em seu quarto. O quarto deste garoto era mais seco e frio que o pântano, por causa do ar condicionado; era ora mais escuro por causa das janelas eternamente fechadas por causa do ar condicionado ou ora extremamente mais claro (e azulado) por causa das lâmpadas que eram acesas quando ele entrava no quarto; os dias e noites tinham duração errática, de acordo com o humor do garoto ou das visitas que recebia; mas a comida era sempre farta: moscas da fruta que nasciam das bananas deixadas para apodrecer.

O sapo vivia num mundo bem diferente daquele que havia conhecido, fechado, igualmente limitado, míope e restrito, mas não podia reclamar muito. Tudo que precisava para viver ali estava à mão. Só que o sapo não nascera num aquário. Ele não tinha os valores dos sapos que nascem em aquário. Não conhecia o ritmo das luzes, não reconhecia os sons estranhos (e altos) ou sabia que inimigos deveria temer. Tudo mudou e ele passou a odiar (e temer) o outro ocupante do mesmo aquário.

Um outro sapo se apresentava desde o primeiro momento que ele chegara. Um sapo estranho, que ficava distante mesmo quando se aproximava. Nunca conseguiam se tocar, mesmo quando ambos esticavam as patas ao mesmo tempo. Sempre havia algo que os separava. No início o sapo da nossa história achou que eram iguais, irmãos do mesmo brejo, filhos da mesma fonte. Depois começou a ver diferenças cruciais: uma marca atrás do ombro ali, um piscar de olhos esquisito aqui e uma mudice eterna, um silêncio ao coaxar mesmo quando se inflava para soltar a mãe de todos os coaxos. Pior, ele debochava de seus gestos, imitando no reverso, agindo no mesmo tempo que ele. Se isto não era uma declaração de guerra, nada mais poderia o ser.

Com o passar dos dias ele ficou tramando estratégias. Pensou em atacar o inquilino com voracidade e devorá-lo com fúria. Já havia feito isso com uma fêmea no passado e não seria difícil com este, tão franzino e inexpressivo. No primeiro ataque viu que seu algoz pensou o mesmo e encaixaram-se barriga-a-barriga, no meio do nada. Vários momentos de fúria foram gastos nas trocas de ataques e defesas coordenados entre os combatentes mas nada surtiu efeito.

Decidiu assustar o inimigo inflando-se e arrotando o ar que engolia. O outro fez o mesmo, ao mesmo tempo, mas criando apenas silêncio como resposta. Ele apavorou-se quando ao encarar o adversário contemplou um olhar fatal, furioso e faminto. Sentiu sua alma batráquia ser drenada pelo confronto de vontades e fugiu para a segurança das bananas que apodreciam. O Outro fez o mesmo.

Os dias passaram e o ódio do sapo voltou-se para si mesmo. Todos os gestos do inimigo lhe causavam espécie. Tudo que ele fazia lhe perturbava, irritava ou enfurecia. Eventualmente ele coaxava ou encarava o inimigo com ódio e ele respondia na mesma altura.

Certa feita o inevitável aconteceu. Exausto de tanto ódio, ele deixou de comer, de se banhar e o ar seco do quarto acabou por ressecar sua pele. O sapo morreu de asfixia, por fim.

O menino recolheu os restos mortais do mascote e procedeu com o antigo ritual funerário de dar a descarga no defunto. Dias depois, um amigo do menino comentou sobre o batráquio durante o recreio da escola entre um sanduíche e um refrigerante que eram servidos. “Ele era meio maluquinho, né? Vivia encarando o espelho!”

Vícios

March 18th, 2015 by zander

Eu sou um dependente. Dependo fundamentalmente de algumas coisas para funcionar com tranquilidade: água, comida, ar; afeto, segurança, teto; rotina, função, destino; paixão, atrito; conflito. Sem esses elementos, meus dias ficam vazios ou inviáveis. Há hora e momento para desfrute de cada um deles. São necessidade, vícios, e prazer. Cada um.

Mas cada um cobra o seu preço. O mamute não chega morto na minha mesa, assado e temperado. Alguém precisa sair para caçar a pizza e exibir sua carcaça ao clã. As batalhas precisam ser lutadas.

Já tive minha fase de procurar discussões e conflitos. Está na minha natureza ariana essa busca pelo calor do atrito. Isto é o exercício de algo indelével em mim, é inexorável, inevitável.

Mas um bom guerreiro sabe quando a batalha é boa e vale a pena ser lutada e também sabe que precisa estar pronto, armado e armaduras para s guerra, antes de tudo.

Eu penduro o escudo, a espada e a armadura diariamente e me vejo sem máscaras no espelho. Encaro uma pessoa cansada que perdeu a noção da batalha, o sentido de acordar todo dia e encarar o ciclo de enfrentamentos, de disputas por espaço, das conquistas por metas percentuais e redução de despesas mas que, de alguma forma, a despeito do cansaço que devora, veste a loriga, monta no corcel de guerra e sangra sua parte novamente.

Exaustão

March 17th, 2015 by zander

Sei que me repito há anos quando digo que estou cansado, que já não tenho forças para andar ou para fazer o que é preciso. É uma repetição clássica de quem está exaurido nos seus meios e jeitos, de quem já não encontra mais ferramentas emocionais para levantar da cama e encarar o dia.

Só que a gente levanta e vai pra rua, pega a condução e cochila até quase perder o ponto. Sacode o tempo que for necessário para chegar no trabalho pronto para mais uma encenação, uma perfomance que visa produtividade, agregação de valor e posicionamento de mercado. Falamos uma língua vazia para ouvidos moucos que só sorriem quando a presa atirada à frente é suculenta e garante a gordura do fim do ano.

Eu imagino neandertais falando sobre metas, margens finais, análises de custo e comissionamento por desempenho. “Gronk conseguiu cinco cervos no semestre passado. Isto é um aumento de 12,6% em relação ao semestre anterior. Palmas para ele.”


Usei ontem a analogia do Tetris para a vida. Ninguém riu. Ninguém entendeu. Tive que explicar. Ninguém riu. Seguimos em frente com prazos, tarefas e metas.

Definitivamente sou um cara sem graça.


Acordo mais cansado que quando vou dormir e eu me deito de exaustão. Quando vejo o que me esgotou, me espanto: nada foi feito. Nem no trabalho, nem em casa. Não virei lajes, não cacei ou plantei, não escrevi ou pintei ou dancei ou cantei. Corri atrás de mim mesmo dentro de mim. É um trabalho emmimesmado.

Ou sou eu quem não tenho mais pulso ou o garra de quem me paga o sal mensal ou a vida exige um sangue no olho, um pulso de dominatrix que absolutamente não tenho, não quero ter e acho desnecessário.

Mas quando me perguntam “o que você quer fazer?” também não tenho resposta. Estou tão esgotado de ideias, de vontades, que mal penso no próximo passo, no devir. Só aguardo as sextas-feiras com a vã esperança de anunciarem um fim de semana eterno.

Um dia serão.

Estranhamentos 

March 16th, 2015 by zander

Eu não sei quando, mas em algum momento eu passei a detestar viajar. Talvez tenha se dado quando eu tive que “morar” em Brasília e ficava na ponte aérea, longe de casa, morando num hotel sem cara ou alma. Ou quando fui “informado” de iria fazê-las cidades históricas de Minas Gerais de ônibus e a pé, com base em BH. Era tanta ladeira e rua com paralelepípedos que que eu caçava às igrejas só para poder sentar um pouco.

Mesmo quando ia com a turma (da escola, da faculdade, do RPG), a viagem era mais uma desculpa para uma festa grande, longe dos pais do que o desejo real de conhecer um lugar novo, novas pessoas e experiências. Eu sempre preferi ficar entre os meus amigos e cenários conhecidos.

Ironicamente vivo hoje entre cidades. Rio e Sampa, como rotina, e Fortaleza, como saudade. A ponte RJ-SP não me afeta tanto, é pegar um ônibus e acordar em um lugar onde minha alma sempre morou, onde nunca deixou de estar. Vir para Fortaleza é outra história, com temperos de angústia, ansiedade, frustrações e culpa. Gente, quanta culpa.


Uns poucos anos atrás, antes da terapia, eu dizia que não sentia culpa. Meus atos eram (são) conscientes a maior parte das vezes e, mesmo os impulsos, são parte de mim que aceito, já havia acolhido e entendido que é coisa que precisa ser vivida sem dramas. Apenas com algum controle.

Claro que tudo isto era ilusão. Não tenho consciência de um centésimo dos meus atos, não sou dono de um milésimo das minhas decisões e sou um poço infinito de culpa. O que aparentava ser tranquilidade e aceitação era apenas remédio para depressão e distanciamento entre mim e mim mesmo.


O que mais me incomoda nas viagens, hoje, é a imperenidade, essa coisa transitória que não se define. Tem gente que se diverte na montanha russa, na roda gigante e no carrossel. Eu não. Já sou diáfano e mutável demais para ter que aguentar uma realidade toda nova que durará apenas cinco dias

Talvez eu apenas esteja mais cansado da vida ou com menos tolerância com as coisas que não criam raízes.


Meu coração mora em três cidades e será assim por um bom tempo. Ou me habituo com isso, ou me vicio em Valium, porque remédio para alma partida ou teleporte barato ainda não há.

Persistência 

March 16th, 2015 by zander

Adoro não fazer coisa alguma mas detesto ficar improdutivo. Quando me comprometo a fazer algo, cato energias dentro de mim que nem sei onde estavam, mas tem uma hora que eu preciso desligar.

Não sei se uso muita energia para resolver coisas simples, ou se moro demais num plano racional, onde tudo tem que ser repensado eternamente, mas o fato é que me esgoto com muita facilidade.

Preciso dormir umas 12h por dia para manter os beleza. Pelo que se vê em mim, estou com várias horas em débito. Alguns meses, talvez.


“O legal é quando a coisa tá pronta e o trabalho fica sendo só a curtição”. Filho, a vida não é assim. Há tanto suor na feitura das coisas que eu perco o gozo dela pronta. Acho que vira “emprego”, e não um trabalho. Obrigação, ao invés de uma realização.

Talvez seja o peso que eu dou para algumas coisas, talvez o desprezo que dou para outras que faça esse contrabalanço equivocado que é a minha relação para com o trabalho. Talvez eu tenha nascido só para viver de brisa e amor, mas o mundo me fez pobre e feio (e meio burro também), daí só consigo fazer o que dá e isto tem que bastar.


Me canso mais comigo que com as tarefas. Tudo me dispersa para o que precisa ser feito e, quando vejo o adiantado da hora, o cansaço a chegar, me desespero. “Não vai dar tempo!”, penso. E às vezes não dá mesmo.


Já me disseram que preciso de disciplina, método, regras, rotina, base, estudo, concentração, ritalina, vergonha na cara, conta pra pagar, bagos e juízo. Eu acho que tenho ou já tive, fiz uso, tentei tudo isso é muito mais. O lance, pra mim, é a perspectiva da coisa. Chega uma hora que só o salário (mesmo um BOM salário) não basta, não resolve nem motiva. Eu preciso de uma missão que faça sentido.


Sei muito bem o que não faço bem, sei porcamente o que não faço mal, mas persisto em tentar, me reinventar, me sonhar.

Leis

March 12th, 2015 by zander

Ontem um amigo querido me disse – num subtexto – que eu cometo uma hipocrisia quando digo que parto do princípio que estou errado. Numa discussão, sou veemente, assertivo e faço uso de várias técnicas de retórica e debate para anular o argumento do adversário. Sim, adversário.

Um debate (ou discussão) não é um momento propositivo. É um encontro de opiniões e vontades, de fazer sua Verdade dobrar à do outro até o silêncio. E como eu gosto de debater! Fico me achando mais inteligente, poderoso e sexy; mais rico, culto e sedutor. É um prazer que não dá para descrever.

Mas isto não implica que eu esteja certo ou o outro errado. Implica apenas que eu soube (ou não) usar uma argumentação melhor que quem aos meus pontos se opõe. Após cada discussão eu remoo o que foi dito e desdito, pensando: o que falei faz sentido, o que que foi contradito faz sentido e é aí que o “princípio de estar errado” funciona.

Gosto de ler e escutar quem pensa diferente de mim. Ajuda a exercitar a tolerância e a paciência. Ajuda também à conhecer como o outro pensa, se aquilo se afina com algo que “faça sentido” na vida.


Outro amigo me disse que “vivo num mundo de pôneis e algodão doce”. Eu bem gostarIa e, de certa maneira, vivo mesmo. Sou privilegiado de tantas maneiras que seria pedante listar como. Mas fui criado olhando a natureza humana sem máscaras (ou através delas, vai saber) e enxergo o brutal e vil tanto quanto o belo e lírico. Se prefiro ter ideais que apontem mais para estes que aqueles, não me culpem. Apenas quero um mundo menos pior para todos.


Conversava com o primeiro amigo sobre as CLT e foi um debate inútil por n razões que não valem a pena. Mas me peguei pensando: e se não houvessem leis. Este é um pensamento comum, de quem vê a sociedade como estrutura e forma organizada, engenhada. É um dos métodos de análises dos sociólogos, filósofos e estudiosos do direito. Não tenho competência para ir a fundo nesta discussão mas gosto sempre de pensar que “o homem é o lobo do homem” é só a lei nos protegeria.

Somos todos vis, cruéis, vilões e cretinos. Dada a chance, usaremos tudo que estiver à mão para trabalharmos menos, ter vantagens em trocas, garantir nosso conforto. Tudo. Qualquer coisa. Principalmente o outro.

Não acredito numa sociedade sadia sem leis boas, claras; sem um sistema de aplicação das leis (e de uso dos recursos legais) suave, sem a obrigatoriedade da força ou do poder. Não acredito no uso do poder (qualquer um) para dobrar o outro para ludibriar uma regra geral. Não sei se isto é fantasia, conto de fadas.

Mas se soar assim, dane-se, prefiro.

Superstições 

March 11th, 2015 by zander

Eu digo por aí que sou um cético, descrente de tudo e despido de misticismos da vida. É meio mentira, claro. Fato, não acredito em mágicas, deuses, espíritos ou alma da forma que são esperados pelos crédulos. Gosto de suas alegorias e seus arquétipos, mas é só.

Eu me arrepio quando ouço falar de “energias quânticas” ou “memória da água”, tenho piripaques quando vejo uma amiga médica falar da “cura pela oração”, surto quieto quando me falam de “cirurgia espiritual” mas isto não quer dizer que ache tudo besteira ou charlatanismo. As coisas existem por algum motivo e continuam existindo porque algo às mantém de pé. Talvez elas funcionem de alguma maneira, em alguns instância.

Como cético, parto sempre do princípio que a Verdade não pode ser conhecida absolutamente (aliás, não existem absolutos, absolutamente) e o máximo que conseguimos é criar simulacros dessa verdade através de linguagens mais ou menos adequadas para ela. Li uma vez, num livro do Stephen Pinker (acho) que dá para descrever a batalha de Waterloo através de princípios termodinâmicos mas que optamos usar o bom e velho português (ou inglês) formatado para historiografia. Tudo que podemos fazer na vida é contar a Verdade da melhor forma que nos cabe.

Por isso tenho um profundo respeito a tudo que vai contra o que acredito. Eu tenho uma visão da vida que é baseada em experiência, em lógica e princípios científicos e humanos mas isto não quer dizer que eu estou sempre certo (tendo a estar, mas deixemos quieto). Aliás, não posso nunca afirmar isso seriamente porque apenas na possibilidade do meu “erro” (ou limite) é que posso melhorar naquilo que digo, faço e sou.

(Só não tenho paciência com quem vem com verdades absolutas, quem não admite questionamentos de suas verdades ou acha que é infalível em si. Ou seja, odeio argumentar comigo mesmo.)

Eu disse que minto um pouco quando falo do meu ceticismo, do meu ateísmo militante. Eu creio numa coisa esquisita chamada destino. É mais forte que eu, não consigo defender por mais de dez segundos sem me passar por bobo, mas está entranhado na forma que eu penso, nos meus planos e atos. Preciso que, regularmente, algo me reafirme que estou no caminho certo, fazendo as coisas certas, construindo certo. Viver no vácuo completo é extremamente difícil e reconhecer que não há certezas algumas na vida, é desesperador.

(Comte-Sponville tem um livrinho legal em que ele trata do desespero. Acho que irei relê-lo.)

Então eu tenho algumas manias, algumas superstições que me ajudam a acordar todos os dias, mesmo exausto, encarar algumas horas de transporte público municipal, todos os dias, muitas horas de transporte estadual semanalmente, muitos meses de secura antes das margens do Nilo subirem novamente.

Eu tenho-as e vivo bem com elas. Ninguém pode querer ser coerente o tempo todo, não é?

Escaladas

March 10th, 2015 by zander

O mais difícil no caminho para realizar qualquer sonho é manter-se nele. Há tanta distração, tanto cansaço, tanta urgência, falta de dinheiro, de amor, de energia, que tudo ou qualquer coisa vira motivo e razão para abrir mão dos sonhos. E isto não é de todo ruim.

Sou um darwinista ferrenho quando se trata das “coisas culturais”. Acho que a preservação tem seu lugar, que é importante preservar culturas, línguas e habilidades que estão a morrer, mas não me comovo quando morrem de fato. Que fique o registro, preserve-se, mas deixe a coisa ir embora.

Os sonhos também passam por este processo. Se ir para a Lua não é mais importante, porque eu deveria me ater a este sonho por toda a minha vida? Eu me impressiono com os casos de gente que trabalhou vinte, trinta anos para realizar uma coisa, como aquele senhor na Índia que construiu uma estalada de acesso sozinho, depois que a esposa morreu por falta de auxilio. É um feito impressionante cavar alguns quilômetros de estrada em montanha adentro. Impressionante e inócuo. Só ele mora ali, anos de trabalho duro para ligar que não existe mais a outra coisa.

Talvez seja eu que não consigo ver a permanência das coisas da vida ou tenha a tenacidade suficiente para manter um projeto até o fim. Não sei. Mas um apartamento, um carro, um emprego, um amor, tudo se esvai no seu momento. Essa enorme noção do fim das coisas sempre me assombrou e eu sei que lutar contra ela é tema de análise e de lendas, mas parece que a obsessão da perenidade do efêmero toma a mente das pessoas. O esforço pro agora é enorme.

As coisas irão embora, queiramos ou não. Só restará a memória e mesmo esta será perdida em algum instante no futuro.

Matei meus sonhos uns anos atrás. Já escrevi sobre isto. Tentei viver o presente anestesiado, dopado, querendo que o futuro chegasse logo com todas as soluções para tudo o que eu vivia. O futuro veio. É bom morar nele, mas não resolveu nada para mim. Meus sonhos continuam mortos, porque não fazem mais sentido, mas eu não consigo deixar de sonhar.

Talvez seja isto que nos move tanto no instantâneo: o sonho de realizar algo que durará apenas alguns segundos, somente umas piscadas de olho, irá embora e conservaremos apenas a história. Subir o Himalaia fica menor que a história da escalada em si.

Talvez eu tenha que aprender a escalar.

Humanidades

March 9th, 2015 by zander

Sempre me espantei com quem se choca, com quem diz que algo é inumano ou quem fala que “não entende” uma reação. Claro que eu mesmo me choco ou não entendo alguma coisa e acho que algumas pessoas trabalham numa escala de valores que considero não-humanistas. Claro que me espanto comigo mesmo e com minhas próprias incoerências, mas não é disto que quero falar.

Quando queremos discursar sobre o outro, sobre os atos e pensamentos do próximo, deveríamos ter em mente todo o espectro possível de reações dele. Desde o mundo fofinho e agradável, infantilizado, até a realidade cruel que as crianças produzem entre si mesmas.

Teve um conhecido, um imbecil, que um dia entrou neste assunto. Ele se chocou com as reações “entusiasmadas” do público do cinema que assistia ao Tropa de Choque, o primeiro filme. Se chocou no deleite que alguns tinham ao ver gente pobre, favelada, ser torturada pelos policiais para arrancar informações. Ele se dizia “chocado” com aquilo tudo.

Me estranha o choque, repito. Tudo no filme apontava para este tom de voz, para estas cenas, para este discurso – ainda que houvesse um subtexto ali. E o público apenas retratava a primeira leitura, não eram Vikings que se materializavam entre as cadeiras, eram pessoas que sabe-se bem a opinião, os gostos e o discurso. É gente que alimenta programas de rádio e televisão deste mesmo teor, gente que elege parlamentares que bradam à volta da ditadura ou um endurecimento burro das penas e das polícias, repetindo técnicas e métodos do tempo da inquisição. Esta gente existe e é tão legítima quanto os mais benevolentes e abnegados seres, os mais caridosos ou elegantes, os educados e cultos. Aliás, esta gente existe no meio dessa toda outra gente ai.

E é tão gente quanto aquilo que se odeia.

Este imbecil dizia ter trabalhado em programas populares e que conhecia a alma do povo. A alma do povo não existe. Existem ideias populares, ideologia popular, pensamento (ou ideal) médio, mas não algo tão absoluto quanto “alma”. Novamente me espantou o espancamento do outro mas, ao comentar que “odiar também é um ato humano é que deveríamos entender tanto o ódio quanto o afeto” o outro disse que “pum é humano e nem por isso ele queria gostar disso”.

Escatologias de quarto ano à parte, ele novamente não entendeu que o nosso gostar é indiferente neste caso. Brigamos (uns, os que gosto de listar “do meu lado”) por valores de justiça, igualdade, oportunidade e tolerância. Valores que eu, como ateu, aprendi no catolicismo e tendo a aplicar no dia-a-dia e que desprezamos no momento em que vemos um “pum” do outro lado da trincheira ideológica.

Óbvio que deve-se apontar o erro, a sujeira, o que está errado e o que tende ao inumano mas eu sempre prefiro fazer o exercício de tentar entender o que motiva uma ofensa, uma agressão e outros tipos de violência. Mesmo não gostando do que vejo, ouço ou cheiro.

Se eu pretendo ser “mais humano”, tenho que entender a humanidade como um todo e não só aquilo que me agrada.

Felicidades 

March 6th, 2015 by zander

Me assusto com a “acachapância” de algumas coisas da cidade. A falta de horizontes, o pouco convívio na rua, o pouquíssimo caminhar, a fúria de quem quer, o desleixo de quem não liga. É tudo muito, demais, apoteótico.

Tenho um amigo que comentou sobre as paletas mexicanas (deliciosas, caríssimas, hipadíssimas). Contou do primeiro cara, do que trouxe a delicia para a cidade e lamentava que este cara não conseguiu “estabelecer marca”, ser confundido com o próprio produto como uma Gilete ou Bom-Bril. Me soou como se esse meu amigo considerasse isso um fracasso. Eu vejo uma moda vir, pessoas – muitas – fazendo negócio, servindo os outros, fazendo pessoas felizes (e com menos dinheiro no bolso) e não consigo, de forma alguma, achar que isto é um fracasso.

Talvez esta seja a “acachapância” que mais me assusta aqui. Essa necessidade de “estar bem”, de “ser sucesso”, bem sucedido. Estou bem longe do sucesso que sonho para mim (eles são intangíveis, inalcançáveis) e bem longe do que se pode considera um homem de 44 anos e com dois filhos. Realizei pouquíssimo, viajei nadíssimo, juntei negativíssimo dinheiro. Sou feliz deste jeito?

Uma outra amiga diz que terminou um namoro de anos com um cara que – pra mim, à distância – era legal, saudável, curtia natureza, surfe, esportes e vivia das fotos que tirava. Claro que nada disso garante o caráter, o trato social, a inteligência ou desempenho sexual da pessoa. Mas o motivo dado pela amiga me estarreceu. “Ele não tem ambição”, disse-me, “ainda mora com os pais e não quer ‘crescer’ na vida”,

Não conheço o rapaz. Não posso julgar o fato nem a decisão da amiga. Não tenho dados para isso. Mas posso julgar o discurso e ele me apavora.

Não sei se sou uma pessoa ambiciosa (acho que não), mas gosto do conforto que o dinheiro dá, quando não me falta. Gosto de comer bem, andar de táxi e avião, não me preocupar com “quanto custa isto” se algo me desperta o desejo. Sou puro id, obviamente, mas para aí a coisa toda.

Não gosto de ser chefe apenas para exercer o pequeno poder, não gostaria de ter milhões ou bilhões ou zilhões de dinheiros apenas “for the sake of” ou cada vez mais livros, gibis, brinquedos, jogos. Não acho que eu seja um acumulador.

Mas talvez eu seja e apenas não enxergue isto. Olhar para si mesmo é impossível. A gente apenas se ilude e registra um detalhe da nossa essência. Ver-nos por completo é acachapante.

Respondendo à pergunta. Para alguns eu digo: “estou feliz”; para outros eu falo das minhas dores, pequenas ou grandes, e eles me aconselham. Não estou contente, nunca estarei.

E acho que a felicidade é isso aí que você leu no texto acima, mas que está escondida no espaço entre as palavras, na distância entre as linhas. É algo que se sabe apenas olhando para trás ou não olhando de maneira alguma.

Comecei falando dos meus medos, falei de felicidade no fim. Acho que está claro agora para quem quiser entender.


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